Há quase um ano, o jornalista Jota Silvestre publicou no Papo de Quadrinho um levantamento sobre quanto o Catarse, principal ferramenta de crowdfunding brasileira, havia financiado da produção de quadrinhos nacionais até então. O resultado foi animador: desde outubro de 2011, quando o site estreou, quase meio milhão de reais foi distribuído entre diversos projetos, movimentando assim a cena e tornando eventos como o FIQ um dos canais de distribuição dessas obras.

Sucesso que, obviamente, atraiu mais interessados em ver o seu ~sonho~ de publicar o seu quadrinho se transformar em realidade; algo potencializado pela chegada da CCXP e outros eventos, teoricamente capazes de ampliarem a exposição dos autores e seus trabalhos. Tanto que, desde 2013, vários projetos já deixavam claro que o lançamento aconteceria nas convenções e festivais.

Bem, este ano eu me rendi ao Catarse.

Junto com o Talles, publiquei o projeto para o financiamento do segundo volume de Mayara & Annabelle, a ser lançado pouco antes do FIQ (eu sei, eu sei!). Tudo correu muito bem, e a HQ atingiu sua meta inicial poucos dias antes de chegarmos na metade da campanha e, menos de duas semanas depois, ultrapassou a primeira meta estendida.

Parece óbvio, mas o negócio é que você não faz ideia de como é o financiamento coletivo até meter a cara nele. E eu acabei desenvolvendo uma certa fixação em tentar entendê-lo.

Um dos motivos que me levou a essa fissura foi a quantidade de projetos que entrou no ar logo após estrearmos a nossa campanha. “A gente teve sorte”, eu disse pro Talles por termos pego uma semana menos movimentada quando começamos. E todos os dias, além de checar o progresso da nossa campanha, passeava pela categoria de quadrinhos para ver o andamento dos demais, se tinha algo novo, os valores pedidos, as porcentagens e quantos dias todos tinham pela frente. O cenário para alguns era bem desanimador.

E foi nesse surto de curiosidade que eu me questionei quantos projetos haviam ficado pelo caminho.

Ok. Quase um milhão e meio de reais obtidos até outubro de 2014. Mas e quanto não foi financiado?

Não que eu acredite que todos devam ser financiados. Longe disso. Há projetos de qualidade duvidosa, que solicitam mais do que precisam e os que eu chamo carinhosamente de truque (aqueles propostos por gente que tem o ~sonho~, sabe?).

Mas com os resultados obtidos através da plataforma, é natural que a quantidade de projetos aumente a cada ano, testando o limite do público seja na quantidade, no bom senso e no bolso. Então eu fui lá e fiz um levantamento sobre quantos foram e não foram financiados através do Catarse.

Só que eu sou de ~humanas~ e números não são o meu forte: o levantamento foi realizado sem qualquer técnica, da forma mais básica possível. Logo, a interpretação dos resultados é limitada e pode ter alguns equívocos, como na escolha dos gráficos e disposição dos dados.

O que eu registrei: quais e quantos foram os projetos, o que foi solicitado, o que foi arrecadado, o progresso/porcentagem alcançada e quantos apoios. O recorte anual foi feito com base na data de encerramento das propostas. Infelizmente, acabei ignorando os tipos de projetos (se eram HQs, livros, artbooks, eventos etc.), quem os submeteu (homem, mulher, organização/instituição/selo/estúdio) e de quais regiões do país eram.

Bem, vamos lá:

  • 2011

O ano de estreia do Catarse. Dois projetos veiculados: Banca de Quadrinhos no FIQ e Achados e Perdidos:

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Apesar do valor arrecadado, a bela HQ do pessoal dos Quadrinhos Rasos já tinha uma boa base de fãs com o site, então podemos supor que o resultado não tenha sido necessariamente surpreendente. Mas estamos só começando.

  • 2012

16 projetos. 11 financiados, 5 não. Este é o ano que tem o projeto com o menor valor pedido entre todos os financiados até hoje: Zinecórnio #3, que solicitou R$ 210,00 e arrecadou R$ 300,00. É também o ano de O Beijo Adolescente – Segunda Temporada e Ryotiras Omnibus: ambos arrecadaram mais de trinta mil reais. O segundo é um dos campeões de apoio da plataforma: 950 colaboradores.

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  • 2013

O ano de ouro para os quadrinhos brasileiros no Catarse: 48 projetos financiados, mais de meio milhão de reais arrecadados através de 14.593 apoios e apenas 7 não financiados. 6 dos projetos financiados ultrapassaram os 40 mil reais, sendo Combo Rangers o campeão com R$ 67.940,00. No entanto, a graphic novel O Monstro foi a que obteve mais apoios: 986.

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  • 2014

Aqui acontece a primeira recessão e um salto nos projetos não financiados: 23 ficaram pelo caminho contra 37 bem sucedidos. Aurora, do ator de TV Felipe Folgosi, foi o maior arrecadador: R$ 40.750,00 com apenas 366 apoios. O segundo lugar, Beladona, de Ana Recalde e Denis Melo, precisou de 657 apoios para atingir R$ 38.092,00. Curioso, hein? O número de apoios no geral também caiu em relação a 2013.

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  • 2015

O ano que ainda não acabou é o ano do pareamento: até 29 de setembro, quando eu fiz o levantamento, 32 projetos não foram financiados enquanto 36 atingiram sua meta. E, pela primeira vez, um projeto teve 0 apoios: 3A, a 1a graphic novel interativa. Também temos o projeto com maior progressão em relação à meta inicial solicitada: Pétalas, de Gustavo Borges e Cris Peter, alcançou incríveis 1069%. A meta inicial, de 5 mil, foi concluída com uma arrecadação de R$ 53.466,00 por meio de 1.463 apoios. No entanto, quem faturou mais este ano foi Will Tirando | O Livro, de Will, com R$ 57.856,00 através de 1.143 apoios.

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CONCLUSÃO (?)

Até a data do levantamento, 133 projetos foram financiados por meio de 43.742 apoios, gerando R$ 2.439.691,00 dos R$ 1.631.597,00 solicitados.

68 não foram financiados. Estes reuniram apenas R$ 211.801,00 dos R$ 1.137.320,00 necessários, cortesia de 3.564 apoios.

De 201 projetos apresentados desde outubro de 2011 até 29 de setembro de 2015, 66% ganharam vida e 34% não.

No geral, os números se mostram positivamente incríveis para os quadrinhos brasileiros, consolidando o Catarse como uma ferramenta excepcional para os autores. E mesmo com a crise econômica atual do país, 2015 já ultrapassou o número de projetos financiados (considerando os que ainda estão em campanha) e a arrecadação de 2014. Só que o número de projetos não financiados também aumentou: 23 ano passado, 32 neste (número que também irá aumentar). Se a crise não é um problema direto nesse caso, qual seria? Eu chuto: projetos ruins fadados ao fracasso; que pedem valores altos para o pouco que oferecem; que não tem promoção adequada dos autores (e isso eu vi com certa frequência desde que começamos a nossa campanha) ou porque eles não têm uma rede de contatos forte o suficiente. E nenhum desses problemas é de responsabilidade do Catarse.

O que eu acho? Financiamento coletivo não é pra qualquer um, muito menos essa molezinha transformadora de sonhos em realidade. Mas é uma possibilidade aberta a todos. Dá a cara a tapa quem quer — só tem que estar preparado porque a resposta pode ser uma mãozada daquelas.

Download: .pdf com o levantamento completo.