Às vezes é preciso largar de mão.

Não, ‘às vezes’ não, diversas. Mas há variações na importância do que deve ser refeito ou abandonado. Antes mesmo de cometer qualquer registro do que virá a ser a história, costumo repassá-la na minha cabeça durante alguns dias. Elementos inicialmente importantes são reduzidos, outros aparecem e mais uns se perdem porque sou avesso ao clichê do escritor em acordar no meio da noite para anotar algo genial. Se for realmente bom, ainda estará lá quando eu levantar da cama.

Só que isso não machuca o ego, a segurança, a fé de que, depois de iniciado o processo, qualquer mudança será em pontos específicos da narrativa e não na trama como um todo. Porque perceber os buracos e a motivação capenga quando, digamos, mais de vinte páginas de quadrinhos foram escritas, dói. Te faz lembrar com vergonha da arrogância de meses atrás, quando você saiu nas suas redes sociais martelando no teclado, o mindinho direito erguido, “ah, argumento pronto, agora é só escrever o roteiro”.

E gibi, no meu caso, não é uma atividade solitária. Sempre tenho um/a parceiro/a, alguém que eventualmente irei aterrorizar com um precisamos conversar. É muito complicado nesse estágio admitir que fizemos cagada, que do jeito que está não dá mais. Mudanças drásticas precisam acontecer ou é melhor acabar. Isso quando existe essa conversa. Pois é.

O recomeço é naquelas: complicado, chato, nervoso. É passar por novos caminhos que podem ou não lembrar os anteriores, onde se fecha os buracos no lugar de desviar deles. “Mas você não podia ter feito isso na versão anterior?”. Não. Não agora. Já deu, a gente precisa pegar outra estrada pro lugar onde queremos chegar. Aquele ia dar sei mais lá onde e tinha umas curvas perigosas. E você tem que saber as limitações das suas habilidades.

Ficam as lembranças, salvas ou deletadas, dependendo da necessidade. Passar a vista pelas boas é a parte difícil. Bate uma certa frustração de não ter dado certo no final, sabe? Eu até tento reaproveitar algumas coisas, mas nem sempre funciona do mesmo jeito ou dá a sensação original.

Bem, história que segue.