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Tag: produção

Sobre desapegar das histórias que gostamos

Às vezes é preciso largar de mão.

Não, ‘às vezes’ não, diversas. Mas há variações na importância do que deve ser refeito ou abandonado. Antes mesmo de cometer qualquer registro do que virá a ser a história, costumo repassá-la na minha cabeça durante alguns dias. Elementos inicialmente importantes são reduzidos, outros aparecem e mais uns se perdem porque sou avesso ao clichê do escritor em acordar no meio da noite para anotar algo genial. Se for realmente bom, ainda estará lá quando eu levantar da cama.

Só que isso não machuca o ego, a segurança, a fé de que, depois de iniciado o processo, qualquer mudança será em pontos específicos da narrativa e não na trama como um todo. Porque perceber os buracos e a motivação capenga quando, digamos, mais de vinte páginas de quadrinhos foram escritas, dói. Te faz lembrar com vergonha da arrogância de meses atrás, quando você saiu nas suas redes sociais martelando no teclado, o mindinho direito erguido, “ah, argumento pronto, agora é só escrever o roteiro”.

E gibi, no meu caso, não é uma atividade solitária. Sempre tenho um/a parceiro/a, alguém que eventualmente irei aterrorizar com um precisamos conversar. É muito complicado nesse estágio admitir que fizemos cagada, que do jeito que está não dá mais. Mudanças drásticas precisam acontecer ou é melhor acabar. Isso quando existe essa conversa. Pois é.

O recomeço é naquelas: complicado, chato, nervoso. É passar por novos caminhos que podem ou não lembrar os anteriores, onde se fecha os buracos no lugar de desviar deles. “Mas você não podia ter feito isso na versão anterior?”. Não. Não agora. Já deu, a gente precisa pegar outra estrada pro lugar onde queremos chegar. Aquele ia dar sei mais lá onde e tinha umas curvas perigosas. E você tem que saber as limitações das suas habilidades.

Ficam as lembranças, salvas ou deletadas, dependendo da necessidade. Passar a vista pelas boas é a parte difícil. Bate uma certa frustração de não ter dado certo no final, sabe? Eu até tento reaproveitar algumas coisas, mas nem sempre funciona do mesmo jeito ou dá a sensação original.

Bem, história que segue.

Páginas

A minha memória é uma desgraça quando preciso tratar de quando tal coisa aconteceu e quanto tempo levou. Ainda bem que eu tenho outras formas para descobrir quando comecei a escrever quadrinhos: por volta de 2002, 2003 (eu não disse que eram formas precisas). Quase 14 anos.

Foram várias ideias nesse tempo. Nem todas foram anotadas. Das registradas, muitas ficaram apenas no estágio de propostas ou nem isso. Algumas se tornaram roteiros capengas sem desenhistas ou com umas páginas desenhadas. E o restante foi transformado em páginas de quadrinhos que eu, de alguma forma, pude apresentar às pessoas.

E são justamente as que foram publicadas, de forma impressa ou virtual, que estou considerando na contagem desses 14 anos de produção. Por quê? Do que serve um roteiro que não virou página e não chegou na mão de um leitor? Nada. O processo de aprendizagem ficou incompleto. (Mas isso sou eu.)

Então, mesmo tendo começado em algum lugar de 2002, os meus primeiros fanzines só ganharam grampos em 2004: 28 páginas, 5 HQs, a mais curta com 3 e a mais longa com 10 páginas. Colaborei com três artistas, sendo o mesmo — Luciano Kars — em 4 das produções.

Em 2005 só publiquei 1 fanzine de 10 páginas.

Já em 2006 foram 6 HQs, a mais curta com 1 página — não coincidentemente para a Just One Page, antologia britânica de caridade que hoje não existe mais —, 3 delas com 8 e uma com 5, totalizando 38 páginas. Este foi o ano que publiquei minha primeira ‘série’, Bit Hunter Girl, com o xará Pablo Peixoto, que teve 2 números lançados (eu escrevi mais 2 edições que não publicamos, então são 16 páginas que ficaram de fora na conta aqui proposta), e também o fanzine que meu deu 1,99 de reconhecimento: Terra do Nunca Love Song 5, com o parceiro de hoje longa data Felipe Cunha.

2007 foram 2 HQs, 19 páginas. Uma delas, Invisíveis, com arte de Thiago Oli, foi publicada na Quadrinhópole #1. Eu fazia parte do Quarto Mundo nessa época — o nome foi a minha maior contribuição ao coletivo —, o que significa que eu me apresentava como roteirista de quadrinhos quando tinha a oportunidade. Heh.

Em 2008 aumentei para 3 as produções. 22 páginas. Céus de Fênix, 8, só viria a ser publicada no ano seguinte na DUO, miniantologia com 3 HQs em parceria com o Felipe Cunha, lançada no FIQ de forma mambembe.

2009 voltei a só ter êxito com 1 HQ de 5 páginas: A Cartilha da Bala, com arte do Felipe Sobreiro, para a INKSHOT, antologia de quadrinhos brasileiros editada pelo Hector Lima e publicada de forma digital pela MonkeyBrain Comics. Além de ser uma das minhas histórias curtas favoritas, foi o único quadrinho que tentei transformar num filme e, bem, deu tanta dor de cabeça e confusão que ele nunca foi finalizado. E talvez isso tenha sido para o melhor.

Chegamos em 2010, o ano que não publiquei nada. Sério, nada. Talvez tenha sido quando eu estava pensando em desistir dos quadrinhos. É, eu passei por isso.

2011 tem o caso da Pas de Deux, mais uma colaboração com o Felipe Cunha: combinamos de lançar o gibi no FIQ daquele ano, produzimos em cima da hora e a gráfica só conseguiu entregar quando já estávamos em Belo Horizonte. Recebemos um pacote com várias cópias no hotel onde nos hospedamos, o Amazonas, em que o quarto tinha uma mancha no chão que suspeitamos ser sangue, o barulho da descarga parecia um tiro de .12 e o elevador era à manivela (?). Mas o melhor foi quando abrimos a caixa e descobrimos que vários exemplares estavam com páginas trocadas e ficamos loucos arrumando tudo com a ajuda do Hector e do Matheus Sant’Anna. A Fictícia ainda não havia nascido. Foram 10 páginas.

A graduação, como já mencionei outras vezes, veio em 2012 com a publicação de Sabor Brasilis, ao lado do Hector, Felipe (Cunha) e George Schall; um projeto contemplado pelo ProAC e rodado e distribuído pela Zarabatana Books. 120 páginas de álbum, das quais 60 ficaram comigo. Tenho um orgulho absurdo do que conseguimos com esse gibi.

Mas aí veio a ressaca em 2013: eu tinha colocado na cabeça que, sem o dinheiro de um edital e uma editora para distribuir, não conseguiria produzir outra HQ de fôlego. E isso estava me comendo o juízo. A Fictícia já havia nascido e estava se preparando para o seu primeiro FIQ. Então publiquei no evento aquele que espero ser o meu último quadrinho curto, O Clube dos Monstros dos Bairros Distantes, com roteiro meu e do Matheus e arte do Talles Rodrigues. 6 páginas minhas, 12 no total.

Ah, 2014. Passou a ressaca, a crise existencial, o cacete. Em janeiro, o Talles, com quem eu trocava e-mails ‘cara, a gente precisa fazer algo de novo’, me apresentou duas meninas: Mayara, uma ninja paulistana de descendência japonesa, e Annabelle, uma maga de Fortaleza. 70 páginas. Mayara & Annabelle Vol. 1. Tudo mudou.

2015 veio e não tinha pra onde correr: Mayara & Annabelle Vol. 2 financiado com sucesso no Catarse. Mais 70 páginas, uma continuação, uma série. Meu eu de 12 anos, aquele que começou a comprar Homem-Aranha na banca ao lado da escola porque estava cansado da Globo reprisando a primeira temporada do desenho e disse pra si ‘um dia eu vou fazer isso’, meio que não acreditou no que estava acontecendo. Bem, aconteceu.

Em 14 anos, 44 páginas foram fanzines; que eu considero aqui aqueles feitos em xerox num papel sulfite e grampeado na mão. 55 foram publicadas online, parte tendo saído como fanzine. 52 foram publicações independentes, que são aquelas com papel melhor e rodadas em gráficas. Até agora estou tratando apenas das HQs curtas. Das longas, 60 saíram por (uma) editora e 140 de forma independente, das quais 70 foram impressas graças a financiamento coletivo.

Eliminando as redundâncias entre o que saiu impresso e online, foram 338 páginas em 14 anos. Fazendo uma média, seriam umas 24 páginas anuais — coincidentemente, a quantidade em uma revista mensal americana até tempos atrás, quando esse número caiu para 20.

Não sei muito bem o que pensar desses números. Acho pouco? Sim. Isso é ruim? Vai saber. De qualquer forma eu publiquei de todos os jeitos possíveis. Algumas pessoas leram e gostaram. Outras até se sentiram representadas. No final, daqui a 14 anos eu posso nem estar mais produzindo quadrinhos.

Ou posso.

Em números: o papel do Catarse na viabilização dos quadrinhos brasileiros

Há quase um ano, o jornalista Jota Silvestre publicou no Papo de Quadrinho um levantamento sobre quanto o Catarse, principal ferramenta de crowdfunding brasileira, havia financiado da produção de quadrinhos nacionais até então. O resultado foi animador: desde outubro de 2011, quando o site estreou, quase meio milhão de reais foi distribuído entre diversos projetos, movimentando assim a cena e tornando eventos como o FIQ um dos canais de distribuição dessas obras.

Sucesso que, obviamente, atraiu mais interessados em ver o seu ~sonho~ de publicar o seu quadrinho se transformar em realidade; algo potencializado pela chegada da CCXP e outros eventos, teoricamente capazes de ampliarem a exposição dos autores e seus trabalhos. Tanto que, desde 2013, vários projetos já deixavam claro que o lançamento aconteceria nas convenções e festivais.

Bem, este ano eu me rendi ao Catarse.

Junto com o Talles, publiquei o projeto para o financiamento do segundo volume de Mayara & Annabelle, a ser lançado pouco antes do FIQ (eu sei, eu sei!). Tudo correu muito bem, e a HQ atingiu sua meta inicial poucos dias antes de chegarmos na metade da campanha e, menos de duas semanas depois, ultrapassou a primeira meta estendida.

Parece óbvio, mas o negócio é que você não faz ideia de como é o financiamento coletivo até meter a cara nele. E eu acabei desenvolvendo uma certa fixação em tentar entendê-lo.

Um dos motivos que me levou a essa fissura foi a quantidade de projetos que entrou no ar logo após estrearmos a nossa campanha. “A gente teve sorte”, eu disse pro Talles por termos pego uma semana menos movimentada quando começamos. E todos os dias, além de checar o progresso da nossa campanha, passeava pela categoria de quadrinhos para ver o andamento dos demais, se tinha algo novo, os valores pedidos, as porcentagens e quantos dias todos tinham pela frente. O cenário para alguns era bem desanimador.

E foi nesse surto de curiosidade que eu me questionei quantos projetos haviam ficado pelo caminho.

Ok. Quase um milhão e meio de reais obtidos até outubro de 2014. Mas e quanto não foi financiado?

Não que eu acredite que todos devam ser financiados. Longe disso. Há projetos de qualidade duvidosa, que solicitam mais do que precisam e os que eu chamo carinhosamente de truque (aqueles propostos por gente que tem o ~sonho~, sabe?).

Mas com os resultados obtidos através da plataforma, é natural que a quantidade de projetos aumente a cada ano, testando o limite do público seja na quantidade, no bom senso e no bolso. Então eu fui lá e fiz um levantamento sobre quantos foram e não foram financiados através do Catarse.

Só que eu sou de ~humanas~ e números não são o meu forte: o levantamento foi realizado sem qualquer técnica, da forma mais básica possível. Logo, a interpretação dos resultados é limitada e pode ter alguns equívocos, como na escolha dos gráficos e disposição dos dados.

O que eu registrei: quais e quantos foram os projetos, o que foi solicitado, o que foi arrecadado, o progresso/porcentagem alcançada e quantos apoios. O recorte anual foi feito com base na data de encerramento das propostas. Infelizmente, acabei ignorando os tipos de projetos (se eram HQs, livros, artbooks, eventos etc.), quem os submeteu (homem, mulher, organização/instituição/selo/estúdio) e de quais regiões do país eram.

Bem, vamos lá:

  • 2011

O ano de estreia do Catarse. Dois projetos veiculados: Banca de Quadrinhos no FIQ e Achados e Perdidos:

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Apesar do valor arrecadado, a bela HQ do pessoal dos Quadrinhos Rasos já tinha uma boa base de fãs com o site, então podemos supor que o resultado não tenha sido necessariamente surpreendente. Mas estamos só começando.

  • 2012

16 projetos. 11 financiados, 5 não. Este é o ano que tem o projeto com o menor valor pedido entre todos os financiados até hoje: Zinecórnio #3, que solicitou R$ 210,00 e arrecadou R$ 300,00. É também o ano de O Beijo Adolescente – Segunda Temporada e Ryotiras Omnibus: ambos arrecadaram mais de trinta mil reais. O segundo é um dos campeões de apoio da plataforma: 950 colaboradores.

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  • 2013

O ano de ouro para os quadrinhos brasileiros no Catarse: 48 projetos financiados, mais de meio milhão de reais arrecadados através de 14.593 apoios e apenas 7 não financiados. 6 dos projetos financiados ultrapassaram os 40 mil reais, sendo Combo Rangers o campeão com R$ 67.940,00. No entanto, a graphic novel O Monstro foi a que obteve mais apoios: 986.

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  • 2014

Aqui acontece a primeira recessão e um salto nos projetos não financiados: 23 ficaram pelo caminho contra 37 bem sucedidos. Aurora, do ator de TV Felipe Folgosi, foi o maior arrecadador: R$ 40.750,00 com apenas 366 apoios. O segundo lugar, Beladona, de Ana Recalde e Denis Melo, precisou de 657 apoios para atingir R$ 38.092,00. Curioso, hein? O número de apoios no geral também caiu em relação a 2013.

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  • 2015

O ano que ainda não acabou é o ano do pareamento: até 29 de setembro, quando eu fiz o levantamento, 32 projetos não foram financiados enquanto 36 atingiram sua meta. E, pela primeira vez, um projeto teve 0 apoios: 3A, a 1a graphic novel interativa. Também temos o projeto com maior progressão em relação à meta inicial solicitada: Pétalas, de Gustavo Borges e Cris Peter, alcançou incríveis 1069%. A meta inicial, de 5 mil, foi concluída com uma arrecadação de R$ 53.466,00 por meio de 1.463 apoios. No entanto, quem faturou mais este ano foi Will Tirando | O Livro, de Will, com R$ 57.856,00 através de 1.143 apoios.

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CONCLUSÃO (?)

Até a data do levantamento, 133 projetos foram financiados por meio de 43.742 apoios, gerando R$ 2.439.691,00 dos R$ 1.631.597,00 solicitados.

68 não foram financiados. Estes reuniram apenas R$ 211.801,00 dos R$ 1.137.320,00 necessários, cortesia de 3.564 apoios.

De 201 projetos apresentados desde outubro de 2011 até 29 de setembro de 2015, 66% ganharam vida e 34% não.

No geral, os números se mostram positivamente incríveis para os quadrinhos brasileiros, consolidando o Catarse como uma ferramenta excepcional para os autores. E mesmo com a crise econômica atual do país, 2015 já ultrapassou o número de projetos financiados (considerando os que ainda estão em campanha) e a arrecadação de 2014. Só que o número de projetos não financiados também aumentou: 23 ano passado, 32 neste (número que também irá aumentar). Se a crise não é um problema direto nesse caso, qual seria? Eu chuto: projetos ruins fadados ao fracasso; que pedem valores altos para o pouco que oferecem; que não tem promoção adequada dos autores (e isso eu vi com certa frequência desde que começamos a nossa campanha) ou porque eles não têm uma rede de contatos forte o suficiente. E nenhum desses problemas é de responsabilidade do Catarse.

O que eu acho? Financiamento coletivo não é pra qualquer um, muito menos essa molezinha transformadora de sonhos em realidade. Mas é uma possibilidade aberta a todos. Dá a cara a tapa quem quer — só tem que estar preparado porque a resposta pode ser uma mãozada daquelas.

Download: .pdf com o levantamento completo.

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